EXCLUSIVO – A escalada das tensões no Oriente Médio nas últimas semanas trouxe impactos imediatos para o transporte aéreo internacional e colocou turistas em uma situação de incerteza. Cancelamentos de voos, restrições no espaço aéreo e alterações de rotas deixaram passageiros sem conseguir retornar aos seus países, especialmente em hubs importantes da região, como Dubai.
Notícias recentes relataram casos de brasileiros retidos em aeroportos, hotéis e até cruzeiros no Oriente Médio após a intensificação do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. Um dos casos mais emblemáticos envolve um cruzeiro atracado em Dubai com mais de 300 brasileiros a bordo, impedidos de retornar ao país após o fechamento do espaço aéreo na região. Além disso, grupos menores de turistas também relataram dificuldades para deixar a região, incluindo brasileiros que ficaram sem voo ou sem recursos financeiros para permanecer mais tempo no exterior enquanto aguardam uma solução para retornar ao país.
Diante desse cenário, cresce entre viajantes e profissionais do setor uma dúvida emergente: qual é o papel do seguro viagem quando eventos geopolíticos extremos afetam diretamente a mobilidade internacional?
A resposta, segundo Renato Spadafora, fundador da Decole Assessoria em Seguro Viagem, passa por entender tanto o alcance quanto os limites das coberturas oferecidas pelas apólices. Embora guerras e ataques militares estejam tradicionalmente listados entre as exclusões contratuais do seguro viagem, isso não significa que o segurado fique totalmente desassistido em situações de crise internacional.
Começando pelas intercorrências médicas ou incidentes comuns durante a viagem, o especialista explica que essas situações continuam cobertas, desde que não tenham relação direta com o conflito. “De uma forma geral, nos países envolvidos no conflito ou em destinos próximos que também possam ser impactados pela escalada militar, como Emirados Árabes Unidos ou Líbano, atendimentos médicos ou outras intercorrências que não estejam diretamente relacionadas a atos de guerra continuam valendo normalmente”, afirma.
Na prática, isso significa que ocorrências comuns de viagem, como acidentes, doenças adquiridas durante a viagem ou até extravio de bagagem, podem continuar sendo atendidas pela assistência, ainda que o viajante esteja em um destino impactado pela instabilidade geopolítica. A exclusão, segundo o especialista, se aplica apenas aos eventos diretamente ligados ao conflito armado.
Uma das principais confusões entre viajantes está relacionada ao papel do seguro viagem na reorganização logística da viagem. Muitos turistas esperam que a seguradora assuma a remarcação de passagens ou o pagamento de hospedagens adicionais quando há cancelamento de voos. No entanto, esse tipo de suporte normalmente não faz parte da estrutura das apólices. “Esses serviços de apoio logístico, como remarcação de passagens ou acomodações, não fazem parte dos serviços contemplados em uma apólice de seguro viagem”, afirma Spadafora.
Segundo ele, essas providências costumam ser tratadas diretamente entre o passageiro e os fornecedores da viagem, como companhias aéreas ou agências de turismo. Além disso, quando o destino está diretamente envolvido em um conflito armado, despesas adicionais decorrentes da crise, como mudanças de voos ou estadias extras que tendem a ser excluídas da cobertura.
Vigência da apólice pode virar desafio para viajantes retidos
Outro ponto crítico em situações como a atual envolve a duração do seguro contratado. Caso o passageiro precise permanecer mais tempo no exterior do que o previsto inicialmente, pode surgir a necessidade de estender a vigência da apólice.
Segundo Spadafora, o procedimento tradicional do mercado é solicitar uma prorrogação de cobertura, que normalmente exige pagamento adicional e análise prévia da seguradora. “Em geral, o procedimento seria solicitar excepcionalmente uma prorrogação de vigência com o pagamento das diárias adicionais e, ainda assim, esse pedido estaria sujeito a uma análise de aceitação por parte da companhia”, explica.
No entanto, diante da atual crise, algumas empresas começaram a adotar medidas extraordinárias para apoiar passageiros afetados.
Entre as respostas emergenciais anunciadas pelo mercado está a da GTA – Global Travel Assistance, que divulgou a prorrogação da vigência do seguro viagem para passageiros que estejam em destinos impactados pela instabilidade geopolítica e que tiveram voos cancelados. A medida prevê a extensão da cobertura por até 30 dias após o término original da apólice, garantindo a continuidade da proteção para despesas médico-hospitalares de urgência e emergência durante o período adicional. A empresa ressalta, no entanto, que eventos diretamente relacionados a guerra ou terrorismo permanecem excluídos das coberturas, conforme previsto nas condições gerais do produto.
Outra companhia que também anunciou uma medida semelhante foi a Coris Seguro de Viagem. A empresa confirmou que concederá gratuitamente a extensão de cobertura aos passageiros que já estejam no exterior segurados, mantendo a proteção até o momento em que consigam retornar ao Brasil.
*Até o momento, as demais seguradoras que atuam com seguro viagem ainda não se pronunciaram oficialmente sobre possíveis medidas extraordinárias.
Corretores buscam orientação diante do cenário
Mesmo sem registros expressivos de sinistros envolvendo brasileiros diretamente afetados pelo conflito, o episódio já mobiliza profissionais do setor de seguros. Spadafora afirma que a empresa tem recebido diversos contatos de corretores interessados em entender como proceder caso clientes entrem em contato do exterior relatando dificuldades para retornar ao Brasil.
A preocupação está relacionada principalmente ao fato de que, em viagens internacionais, o segurado pode estar em fusos horários diferentes, o que dificulta o contato imediato com executivos de atendimento das seguradoras no Brasil. Nesse contexto, o especialista ressalta que empresas de assessoria especializadas em seguro viagem acabam atuando como intermediárias entre corretores e seguradoras para facilitar a comunicação e orientar os profissionais sobre as coberturas disponíveis. “Os corretores apoiados por empresas como a Decole, que lhes prestam serviço de assessoria, poderão recorrer a essas empresas, que se encarregarão de facilitar essa interlocução com as seguradoras”, orienta.
Por isso, ele reforça que, em situações de crise ou dificuldade durante a viagem, o primeiro passo do segurado deve ser procurar o corretor responsável pela contratação da apólice. “O cliente deve procurar o corretor de seguros em quem confiou para contratar o produto. Caso o corretor tenha dúvidas sobre como proceder, ele pode buscar apoio em assessorias especializadas em seguro viagem para facilitar o contato com as seguradoras e orientar o segurado”, conclui Spadafora.
Embora o seguro viagem continue sendo uma ferramenta essencial para emergências médicas e imprevistos durante viagens internacionais, episódios como o atual conflito, mostra que a proteção tem limites claros. Em cenários de fechamento de espaço aéreo e cancelamento de voos, o seguro pode garantir assistência ao viajante, mas a solução para voltar para casa ainda depende, principalmente, da normalização das rotas e das decisões das companhias aéreas, além de decisões políticas e federais.
Nicholas Godoy
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